Hospital de Goiânia é referência em cirurgia para separar siameses

Os irmãos João Mateus e Lucas eram mais unidos que outros gêmeos. Eles nasceram dividindo o fígado e um osso da costela. A mãe, a dona de casa Welia Carvalho Neres, soube que teria siameses três horas antes do parto. “Foi um baque muito forte. Passou um filme na minha cabeça: como eles iam ser, como iam nascer, iam sobreviver?”, relembra.

O parto foi no Hospital Materno Infantil, em Goiânia. No quinto dia de vida, o médico chamou a mãe às pressas: a separação era urgente. “Lucas estava puxando o sangue do João Mateus. Aí o desespero foi maior”, conta Welia. Uma veia que os gêmeos compartilhavam no fígado provocou a transfusão. Hoje, quatro anos depois, o órgão se regenerou.

O caso deles foi o 11º de gêmeos siameses a parar no Hospital Materno Infantil. Construída na década de 70, a unidade de saúde na cidade de Goiânia atende emergências de pediatria, ginecologia e obstetrícia, mas se especializou no acompanhamento de gravidez de alto risco.

Em 1999, as irmãs siamesas Larissa e Lohayne Canindé mudaram a história da alta complexidade no hospital goiano. Elas nasceram unidas pela bacia e abdômen, tinham três pernas, dividiam o fígado, o intestino grosso, o intestino delgado e a bexiga, além de compartilhar um único órgão genital. Os pais biológicos se assustaram com o quadro tão complexo. Foi a tia Luciana Gonçalves da Cunha Silva quem assumiu as sobrinhas e começou a procurar ajuda médica. “Na época, a gente conseguiu um médico. Só que ele queria sacrificar uma delas. Eu não quis”, afirma.

O pedido de ajuda desesperado chegou ao cirurgião pediátrico Zacharias Kalil, que aceitou fazer a operação inédita em Goiás. A primeira batalha foi convencer colegas a fazer parte da equipe. “Passamos a estudar muito, imaginar como seria a cirurgia”, conta.

Bonecas de plástico serviram de modelo para simular a cirurgia, que iria durar mais de 15 horas. O anestesista André Braga recorda que os médicos esbarraram em outro problema. “Na época, o hospital não tinha infraestrutura e condições técnicas para poder fazer o procedimento”, diz.

Fotografias tiradas em 2000 mostram como era precário o centro cirúrgico do Hospital Materno Infantil. Fazer as mudanças para conseguir separar as irmãs levou oito meses. “Como diretor, fiquei o dia anterior, o dia da cirurgia e o pós-operatório praticamente morando dentro do hospital, porque, se faltasse alguma estrutura, algum medicamento ou material clínico-hospitalar, eu dava conta a tempo”, destaca o ex-diretor geral do HMI Luciano Sardinha.

A operação, que é de alta complexidade, foi bem sucedida. Hoje, Larissa, a gêmea que um médico quis sacrificar por ser a mais franzina, sonha em ser médica. “Quero me formar em pediatria por causa do doutor Zacharias”, sonha a estudante de 13 anos. A irmã, Lohayne, que tinha paralisia cerebral e sofreu complicações por causa da má-formação, sobreviveu até os sete anos de idade.



A Organização Mundial da Saúde estima que, para cada 200 mil bebês nascidos vivos, um terá a má-formação que dá origem aos gêmeos siameses. Desses, 60% morrem ainda na gestação ou logo após o parto, enquanto 35% resistem só ao primeiro dia de vida. Apenas 5% sobrevivem, mas com poucas chances de chegar à vida adulta.

HMI é referência

A literatura médica mundial indica que, dentre os siameses que são operados, um em cada cinco sobrevivem à cirurgia. No Hospital Materno Infantil, no Estado de Goiás, esse índice chega a 50%. A ciência ainda não explica a causa, mas revela que a má-formação genética ocorre na terceira semana de gestação. O óvulo começa a se dividir para formar dois embriões, quando o processo é interrompido. Enquanto pesquisadores buscam as causas, médicos do HMI tentam dar qualidade de vida aos pacientes.

A equipe de Zacharias Kalil já foi procurada em 25 casos. Em nove, a operação pode ser feita e Goiânia se tornou referência em separação de siameses. O centro cirúrgico do hospital recebeu os equipamentos mais seguros e sofisticados, capazes de manter o paciente sedado por longas horas de cirurgia. “De forma geral, temos condições de dar o suporte pós-operatório para essas crianças”, avalia o pediatra Romélio Lustosa.

A autoridade médica alenta famílias de outros países. Um casal do México pediu ajuda para separar gêmeos de sete meses que nasceram unidos pelo abdômen e pela bacia. As embaixadas dos dois países negociam com o estado a realização da cirurgia. Com quadro semelhante, Simone Sampaio saiu da cidade de Fortaleza para operar Levi e Israel, que dividiam a bacia e os intestinos grosso e delgado, além de ter as bexigas unidas. Eles tiveram alta um mês depois da operação. “Eles se desenvolvem bem, a gente não priva de nada”, diz a mãe.

Para andar, eles ainda vão precisar passar por uma cirurgia para ajustar a posição dos quadris e das pernas. A bacia unida foi um desafio e também um avanço para a equipe de Kalil. O protótipo criado pelo cirurgião pediátrico ajudou a decidir a melhor forma de realizar a operação.

É sobre esta mesma anatomia que os médicos trabalham para separar Artur e Heitor, um dos casos mais complexos que já passaram por Goiânia. Eles dividem tórax, bacia, intestino grosso, bexiga, fígado e o órgão sexual. A mãe, Eliana Brandão, foi ao Hospital Materno Infantil desde que soube que eram siameses. Eles estão hospedados na casa de apoio a pacientes de fora.

Normalmente, a cirurgia de separação é feita até um ano de idade. Artur e Heitor estão com quase quatro anos, mas ainda não foram operados porque dividem uma grande extensão do corpo e, para a cirurgia, precisam de muita pele. Eles passam por procedimentos com expansores e o médico Zacharias Kalil acredita que, em seis ou oito meses, os dois estarão separados.

Fonte: G1



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