Histórias de Moradores de Goiânia

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores de Goiânia.


História da Moradora: Marina Quinan
Local: Goiânia
Publicado em: 12/07/2004






Marina Quinan

Sinopse:

Conta sobre sua origem, escolas, mudança de Goiânia para São Paulo. Escola Célia Helena. Conta sobre os projetos Arte nas Ruas, Trupe Quintale Baú Brasil. A Comedia dell'Arte. Faz o Caminho de Santiago.O acidente de bicicleta, cirurgias, sentimentos, recuperação. Volta ao teatro. O Clawn e o Doutores da Alegria.

História
:
P - Bom, para começar gostaria que você falasse seu nome, local e data de nascimento.

R - Marina Quinan, eu nasci em Goiânia em 20 de março de 1976.

P - Nome de seu pai?

R - Noemi Marcos Quinan.

P - Ele é de lá mesmo?

R - Ele é de uma cidade que se chama Ipameri, no interior de Goiás.

P - Você conheceu seus avós?

R - Conheço. Os pais dele, o pai dele nasceu em Ipameri e a mãe do meu pai nasceu numa cidade chamada Três Quartos da Limeira, hoje mudou o nome, mas é tudo em Goiás, a família do meu pai é toda de lá.

P - A origem é de lá mesmo, não vieram de outro estado ou de outro país.

R - O avô do meu avô era sírio, mas bem longe.

P - Isso do lado do seu pai?

R - Do lado do meu pai, e o avô da minha mãe era italiano.

P - Nome da sua mãe?

R - Marízia Tonelli, nasceu em São José do Rio Preto, São Paulo.

P - E os pais dela, são de lá, você conhece?

R - A mãe da minha mãe nasceu Peloni no Estado de São Paulo, na região, existe, até já vi no mapa. Meu avô acho que é de São José do Rio Preto mesmo, ele eu não sei, ele faleceu eu era pequena.

P - Eu vou pedir para você falar um pouco das atividades dos seus avós, de um lado e de outro, se você conhece um pouco da história dos seus avós.

R - Meu avô, pai da minha mãe, ele faleceu eu tinha uns sete anos e a mãe da minha mãe é super religiosa, freqüenta bastante a igreja, é uma figura bem fechada nesse mundo. O contato que eu tenho com ela hoje é bem pouco, é só “Oi vó, tchau vó”.

P - Ela continua morando no interior?

R - Não, mora aqui.

P - Quando que ela veio para São Paulo?

R - Ela veio quando minha mãe tinha uns 15 anos, há muito tempo.

P - Então sua mãe cresceu em São Paulo?

R - Cresceu em São Paulo.

P - E a atividade do seu avô, porque ele veio para cá, você sabe?

R - Ele tinha uma loja de tudo.

P - Em que lugar de São Paulo?

R - Não sei.

P - E do seu pai, você conhece um pouco da família dos seus avós?

R - Meu avô morava em Ipameri, o pai do meu pai, e minha avó já era casada, nessa época que eles se conheceram. Eles se conheceram na cidade, não sei porque minha avó foi morar em Ipameri, mas ela foi morar lá. Ela já era casada e tinha três filhas e aí o marido faleceu e meu avô casou com ela. Eles casaram de novo e nasceram mais quatro filhos, e meu pai é dessa segunda barrigada. Eles tinham comércio, aquela coisa de vender comida, vender queijo.

P - Bom, vamos contar um pouco da sua vida, da sua infância, quantos irmãos você tem. Onde você nasceu, o começo da sua vida.

R - Eu nasci em Goiânia, eu tenho dois irmãos, um mais velho e um mais novo. O mais velho tem dois anos a mais e o mais novo tem dois anos a menos. A gente cresceu em Goiânia, a gente morava numa casa. Era uma rua de terra, num bairro – hoje em dia não é mais assim porque Goiânia cresceu muito. Mas era um bairro muito afastado do centro da cidade, para chegar é como se fosse pra periferia. Eu cresci lá, fiquei lá até uns nove anos. Na rua onde eu morava tinha muito menino, tinha duas meninas. Eu cresci , mesmo porque tinha só irmãos, muito com meninos, brincadeiras de menino, brincadeira de rua.

P - Que brincadeira que eram?

R - Esconde-esconde principalmente, que valia por quatro quarteirões, então era um esconde-esconde eterno, nunca se achava ninguém, sumiam, ficavam o dia inteiro escondido, fazendo outras coisas nas casas de outras pessoas. A gente fazia pista de bicicleta, tinha muito terreno vazio. A gente ia com enxadinha, construía pista de bicicleta, a gente fazia campeonato. Que mais, empinava pipa. Quando a rua foi asfaltada, a gente ficava em cima dos caminhões de piche, voltava com piche no pé, não saia nunca.

P - Você se lembra do asfalto chegando na sua rua? E a primeira escola, você começou a freqüentar a escola lá em Goiânia?

R - Lá. Eu entrei na escola um pouco tarde porque lá... acho que eu entrei na escola com uns seis anos.

P - Com seis anos, então era pré, provavelmente.

R - Se não me engano eu entrei um antes que o pré, devia ser maternal, chamava Educandário Goiás, era uma escola que toda minha família estudou, os primos... Tina a diretora da escola, a Dona Maria. A escola era numa casa, talvez um pouco maior que essa só, era super familiar. Eu me lembro que quando o botão da saia caia, eu ia na sala da diretora e ela costurava o botãozinho assim.

P - Então era uma classe pequena, poucos alunos.

R - Era pequenininha, a escola em si era pequenininha.

P - Então tinha só pré escola?

R - Tinha até a quarta série essa escola, depois a gente tinha que mudar. E como eu saí de lá na terceira, então lá em Goiânia eu estudei só nesta escola.

P - E você se lembra como era a escola?

R - Eu me lembro muito do que a gente brincava. A gente brincava de elástico, uma brincadeira que duas pessoas ficam segurando o elástico. Eu me lembro que eu era muito boa nisso. Eu pulava muito alto. Era a melhor coisa de brincar na escola. Eu me lembro de uns dias que a gente tinha que cantar o hino nacional, ficava na fila cantando o hino nacional. Não era sempre assim, eu tenho esses flahs assim.

P - E vocês faziam lazer assim, fim de semana, viagens, com a escola ou com a sua família?

R - Com a escola não, não tinha esse tipo de atividade. Mas com a família, com as irmãs do meu pai. Meu pai tem seis irmãs, ele é o único homem. E as irmãs e as famílias das irmãs, eles tinham muito sítios, fazendas. Eu ia bastante. Eu ia bastante na casa de uma prima. De viagem era isso, a gente ia muito para o interior, para fazenda.

P - Bom e aí com nove anos você mudou para São Paulo. Como foi essa mudança, o que você achou, você já conhecia São Paulo?

R - Então, foi um pouco horrível assim. Eu tinha vindo uma vez para São Paulo. Eu vim conhecer o Mundo da Criança, que era um tipo de Play Center. Não sei se chamava Mundo da Criança, não sei como que era. Eu vim com uma excursão que foi horrível. Eu falava “Mas pra que tudo isso?” Acho que minha mãe que queria que a gente viesse, fez a maior força pra gente vir, veio eu e meus irmãos e eu tive essa impressão, que era tudo muito grande e muito tumultuado. A gente veio sozinhos sem os pais. Aí quando eu mudei foi meio um choque. A gente mudou pra um lugar muito legal que é onde eu moro hoje, que é um condomínio de oito prédios onde a minha avó morava com a minha mãe. Minha mãe, antes de se casar com meu pai, morava nesse lugar. É um condomínio lá na Aclimação. Quando minha mãe casou ela foi para Goiânia e quando a gente voltou, a gente voltou para o mesmo lugar, para um outro prédio, mas o mesmo condomínio. É um lugar legal, tem quadra, tem muita criança, mas pra mim que estava acostumada a andar só descalça e de calcinha na rua, eu não tinha uma coisa que já tinha aqui em São Paulo que era menino/menina. Eu não tinha isso, pra mim é como se fosse o mesmo sexo até então. Minhas brincadeiras eram todas junto com meninos, então não tinha como olhar diferente. Era tudo igual. E aqui, quando eu cheguei, tinha essa coisa, porque tão diferente, porque precisava uma turma para menino e uma turma para menina?

P - Foi difícil você encontrar sua turma.

R - E as meninas queriam saber de outras coisas, queriam saber de ficar falando, fofoquinha, fala disso, fala daquilo. Isso para mim não tinha o menor interesse, eu queria jogar bola, eu queria brincar. Isso me irritava um pouco e ao mesmo tempo super insegura. Numa situação super insegura de querer também se integrar e então eu fazia várias coisas que eu não tinha vontade de fazer, mas eu fazia porque era da turma e tinha que fazer. Ainda que era um condomínio e era uma turminha muito fechada ali. Conheço as pessoas até hoje.

P - Porque vocês vieram para são Paulo?

R - Porque meus pais se separaram, aí meu pai foi morar em Belém do Pará e minha mãe voltou para cá.

P - Os seus pais se conheceram como, ela morava aqui e ele era de lá.

R - Ela morava em Rio Preto e meu pai quando tinha uns 20 e poucos anos, ele fazia teatro. E ele foi se apresentar num festival em Rio Preto. E eles se conheceram na porta do teatro, eles estavam tocando violão, meu pai estava lá, minha mãe estava lá. Aí eles se conheceram e começaram a namorar, começaram a conversar de música. Meu pai adora música, eu adoro música porque eu ouvi desde pequena música brasileira, eu adoro música. Eles contam essa história engraçada. Minha mãe perguntou: “Alguém sabe cantar a música do Dorival Caymmi – O Mar?” e meu pai “Eu sei”, e sabia cantar, na época não sei se as pessoas conheciam Caymmi e tal. E eles começaram a namorar, namoravam por correspondência praticamente, minha mãe foi pra lá algumas vezes e meu pai veio pra cá algumas vezes e se casaram. E minha mãe foi morar em Goiânia, que é uma sociedade muito machista.

P - E aí se separaram, até que eles ficaram bastante tempo né. Eles ficaram um tempão casados.

R - Ai eles se separaram e meu pai foi para Belém e minha mãe voltou.

P - Seu pai foi pra Belém porque?

R - Nessa época ele trabalhava na Arisco e tinha que ir alguém para lá representar a Arisco no Pará, aí ele foi. Ele já ia. Mora até hoje lá.

P - E sua mãe, você disse que ela é arqueóloga. E ela sempre trabalhou, como foi?

R - Na verdade minha mãe fez Direito, a primeira faculdade dela, ela se formou, mas só que ela nunca gostou, ela fez porque mandaram ela fazer. Depois ela fez especialização em arqueologia e hoje em dia ela trabalha com isso. Aqui em são Paulo.

P - Desculpe a curiosidade, como é trabalhar com arqueologia?

R - Ela está trabalhando em um projeto, são projetos, o ano passado ela foi para o interior de Goiás, para o interior de Goiás, para fazer a limpada, eles iam limpar um muro da época dos bandeirantes. O trabalho era ficar limpando, tirando o que não era da época. E hoje ela está num projeto que é de uma aldeia dos Guaranis, em Bertioga e no Pico do Jaraguá que eles estão escavando um poço de Afonso Sardinha, sei lá. Mais ou menos isso. Trabalha no MAI.

P - E a escola, como foi a parte da mudança de escola, você estava contando da parte do condomínio...

R - Aí a gente entrou numa escola, os três, eu e meus irmãos. A gente entrou para uma escola que se chama Anglo Latino, fica perto do Parque da Aclimação. É uma escola gigante, super formal, hoje em dia eu chamo de uma educação castradora, você é um número dentro da escola. Eu tinha vindo de uma escola onde a diretora costurava o botão, aí cheguei numa escola onde você tinha uma carteirinha com uma foto, tinha que colocar na caixinha na hora que você entrasse, pra receber a presença, era muita coisa. Tinham muitos professores, muitas aulas, muito... Lá eu tinha aula com no máximo duas professoras. Era muita informação, não tinha tempo. O Anglo é assim. Essas escolas vão muito pela quantidade de informação que tem que ter e pouco... Não sei. Acho que eu não aprendi muita coisa nesse colégio porque eu não tinha vontade de estudar, eu era obrigada a estudar.

P - E você se deu mal?

R - Não, eu sempre estudei porque tinha que estudar, decorava tal coisa porque tinha que passar na prova. Isso que eu acho péssimo nessas escolas, porque não se aprende nada. Não é prazeroso o tempo que você fica lá. E também tinha que cumprir uma carga horária, então você tinha aula de sábado. De segunda a sábado com 14 – 15 anos, é um absurdo. P/3 – Mas você entrou no Anglo com quantos anos?

R - Nove. E fui até o terceiro colegial lá. P/3 – Os teus irmãos também sofreram com a vinda?

R - O mais velho ache que ele não sofreu tanto porque ele se integrou logo com a molecada. Mas o mais novo sofreu, acho; não sei até que ponto.

P - Então foi uma mudança radical de Goiânia para São Paulo, a cidade muito grande, você se sentiu perdida na liberdade, em tudo?

R - É, só essa coisa de você não poder brincar livre, a brincadeira ter que ser presa num lugar, e as brincadeiras eram outras, tem uma quadra lá e tudo tinha que ser brincado dentro da quadra. Eram outras brincadeiras. As brincadeiras eram baseadas em alguma coisas, num skate, num patim, num brinquedo que está ali e as pessoas brincam com o brinquedo. Em Goiânia o brinquedo era a integração das pessoas.

P - Então tinha uma grande diferença. E a televisão, como entrou na sua vida. Estou perguntando porque uma pessoa da cidade via muita televisão, ou não?

R - Em Goiânia não, não tinha muito tempo. Em São Paulo mais, eu me lembro que eu fiquei dois anos, praticamente dentro de casa, olhando e não acreditando que estava aqui. Eu não estou acreditando que eu fico o dia inteiro presa dentro de um apartamento, e aí assistia bastante televisão. É engraçado porque eu me lembro que na época tinha o Bozo. Quando eu cheguei aqui as crianças amavam o Bozo e eu não sabia nem o que era. Aí eu tinha que assistir para falar com os meus amiguinhos. Eu achava ruim aquilo, eu não achava engraçado. A televisão teve que entrar, eu tive que assistir para poder me integrar. Até então não, eu chegava da escola a meio dia, ficava na rua até anoitecer. Estando de castigo ou não, porque eu fugia de casa quando eu estava de castigo.

P - E você conversava das coisas que você estava sentindo com alguém? Alguém que te ajudou?

R - Não.

P - Nem com teus irmãos? Foi uma coisa mais solitária?

R - Foi. Porque quando a gente voltou, minha mãe teve que trabalhar muito e ela chegava a noite.

P - Você via pouco a sua mãe?

R - Via pouco. P/3 – Ninguém sabia que você estava descontente?

R - Não, acho que não, acho que só eu.

P - E tua mãe gostou de vir para São Paulo?

R - Gostou, acho que sim.

P - Era a cidade dela, não teve muito problema. Bom, e como continuou, além da escola, você foi crescendo, você falou que começou a fazer teatro, como foi isso?

R - Foi na escola, não sei porque me deu vontade de ir, mas tinha um curso de teatro, aí eu fui. Era com um professor de História o curso e o professor entregou um texto que era o Saltimbancos e falava “Faz aí” e dormia na cadeira.

P - Isso era aula de teatro?

R - E a gente ficava brincando, fazia o que a gente achava, “Vamos fazer assim esta cena” Acho que eu tinha uns 13 anos, uns 12, não sei. “Ah, vamos fazer assim, vamos cantar assim?” A maioria já tinha assistido o filme. E ficava copiando, né, o professor dormia e era isso. Esse “Nike da Educação”.

P - Era uma opção dentro da escola, dentro do que você tinha. Podia ser arte ou teatro ou não?

R - Podia ser esporte ou teatro.

P - arte não tinha?

R - Não.

P - Aí você começou a pegar o gosto, viu que gostava disso?

R - É. Aí foi chegando a época, primeiro colegial, que todo mundo sabia o que fazer e eu nada o que eu quero fazer. Aí uma hora, acho que na oitava série, fiquei pensando, vou fazer teatro, vou experimentar. P/3 – Vocês apresentaram o Saltimbancos?

R - Apresentamos na escola, pros pais. Aí a gente fez outra, Morte e Vida Severina.

P - e o professor continuava dormindo?

R - Continuava dormindo, aí ele foi demitido (risos). Ele era um bom professor de História.

P - Você tinha aula também de História com o mesmo professor? Na aula de História ele não dormia, só na aula de teatro que ele dormia?

R - Ele era de Minas, de Montes Claros, aí ele voltou para lá, eu lembro, no último ano. Sempre foi ele o professor. A gente brigava, até no segundo colegial, eu fiz direto teatro. A gente brigava, tinha uns meninos mais velhos que falavam que queria ______. Eu falava “Não, eu acho isso feio” E o professor deixava, tinha que se virar, tinha que resolver. Aí, antes de terminar o terceiro colegial eu entrei no Célia Helena, que foi a escola que eu fiz. Nova, eu tinha 16 anos. Fia a escola, terminei e comecei a trabalhar.

P - Como foi essa escola aí.

R - Na época eu gostava. Eu fiz com 16, 17 e 18 anos. Eu gostava bastante na época, hoje em dia eu critico bastante, acho que poderia ser muito melhor, enquanto escola de teatro. Como aluna, eu gostava muito.

P - Conta um pouquinho, como era, o que você aprendia, porque que hoje você acha que não era tão bom?

R - A gente tinha aula de teatro, de voz, expressão corporal, interpretação de texto, canto.

P - Com que freqüência?

R - Começou com duas vezes por semana, a medida que você ia passando de semestre ia aumentando até que ficava todo dia. Aí começou desde aí não ter fim de semana. Até hoje, nessa área...

P - Você, ao mesmo tempo que fazia o curso, já estava dentro de alguma peça ou não?

R - Não.

P - Quanto tempo durou o curso?

R - Três anos. Agora eu acho que são três anos e meio, mas na época eram três anos. Aí a gente tinha essas aula, uma aula de teatro e uma de outra coisa. Eu gostava bastante, como eu achava bastante coisa de teatro quando eu fazia e o professor dormia, chegou lá eu vi que eu tinha intuição do que era e lá me falaram “É assim, a técnica é essa”. E as pessoas que eu conheci lá também são super amigas até hoje. Foi ótimo por causa disso, na época também. Eu não tinha um olhar tão crítico, eu não sabia nada, como não sei até hoje. Eu acho que é uma escola muito paternalista, não se forma, na verdade, atores. Forma um bom público de teatro e isso eu questiono um pouco. Mas as pessoas que entram lá são muito novinhos.

P - Quantos anos você tinha quando você entrou?

R - Dezesseis, terminei com dezoito. P/3 – Como era você estar no Célia Helena, fazendo uma coisa que você gostava, ao mesmo tempo o colégio? Você entrou em mais crise por causa disso?

R - Não, daí eu desencanei de vez do colégio. Aí eu comecei a gostar muito de teatro. Eu entrei meio que só pra ver o que era. Até é curioso porque quando eu estava procurando curso de teatro, eu liguei para o meu pai e perguntei “Pai, você conhece alguém?” Porque meu pai tinha alguns contatos e ele é amigo do Celso Viafora (?) um músico, e aí ele ligou par o Celso pra ver se ele conhecia alguém. “Eu estudei com uma pessoa que da aula em uma escola, a Soráia, dos Doutores da Alegria.

P - Ela deu aula para você?

R - Deu aula pra mim no Célia Helena, deu aula de Comedia dell’arte. Daí eu descobri o que eu mais gostava no teatro que era Comedia dell’arte, que a Soráia que... hoje a gente trabalha junto.

P - Eu sei quem é. Trabalha nos Doutores.

R - Aí eu comecei a gostar de verdade, é isso que eu quero, fazer teatro, estudar isso. Aí o vestibular, prestei só por prestar, pra Artes Cênicas, mas não passei nem na primeira fase. Porque eu não estudava, estudava para passar de ano, não fazia cursinho. No colégio tinha aula extra, se você quisesse você ficava das sete da manhã a sete da noite estudando. Imagina, eu ia lá cumprir minha função e ia embora, eu não queria nem saber, não tinha nenhuma motivação. A gente tinha uma apostila de História que foi feita por um professor que faleceu. Ele dava aula de História do Brasil. Ele fazia a apostila e ele colocava o que ele queria da História do Brasil. Ele colocava falas de Dom Pedro, e você tinha que decorar. Tipo a pergunta era essa, você decore isso. Ele continuava mantendo esse professor porque ele era o pai do dono da escola. Aí eu não quero, aí eu passei de ano, nunca fiquei de recuperação, passava tudo, decorava tudo.

P - Cumprir a obrigação.

R - Cumprir a obrigação pra fazer o que eu queria.

P - Como era com o teu pai, você via ele freqüentemente?

R - Até eu terminar a escola eu via duas vezes por ano, nas férias. A gente ia para lá sempre em julho e no final de ano. Sempre que tinha férias a gente passava lá.

P - Como foi isso, conviveu com ele depois via ele só duas vezes por ano.

R - Foi tranqüilo, era o suficiente. Lógico, dava saudade, mas ele foi sempre uma figura muito presente, apesar da distancia, a gente sempre se falou muito, sempre ele teve uma participação em todos os momentos importantes, mesmo de longe. Dava saudades, queria que as férias chegassem, também porque férias é férias, é sempre o melhor momento, você fica passeando. É sempre prazeroso.

P - Você ia para Belém? Você ia encontra-lo lá?

R - A gente ia para Belém. Troca de fita

P - E os namorados, quando começaram aparecer?

R - Em Goiânia, tinha o primeiro, com nove anos, dei até um beijo na boca dele. Que era o Kleiton (?), ele morava em frente a minha casa. Eu gostava dele, não tem explicação. Uma vez a gente estava brincando de esconde-esconde e ele me lascou um beijo, não foi um namoro, foi só um beijo.

P - Você veio para São Paulo e ficou o namorado lá.

R - Era uma coisa engraçada, não tinha assim, não se falava em namoro, não se passava isso pela cabeça. Foi legal, foi só um beijo, ainda bem que teve porque eu gostava tanto dele, era tão amigo, a gente brincava junto. Aí eu mudei, eu nunca mais vi ele, vi os irmãos uma vez que eu fui para lá, que eu fui na rua onde eu morava e vi o irmão dele, mas nunca mais vi.

P - Depois desse?

R - Aí, teve um namoradinho na escola, aqui. Mas isso depois de muito tempo, quer dizer, não tanto tempo assim, eu tinha uns 12 anos. Onze, doze anos, não sei. Ele era da escola, do Anglo e a gente namorou uns dois anos, assim de namorar, de mão dada, ia no bailinho. O Brunora, fui ver ele no ano passado, quando eu sofri o acidente, ele foi lá em casa.

P - Brunora?

R - Brunora era o sobrenome, Eduardo Brunora. As pessoas se chamavam pelo sobrenome na escola, já era uma coisa tão...

P - E você convivia com a família dele?

R - Convivia, a mãe dele era professora de português, mas não da gente, do primário. Aí eu convivia. O irmão dele era amigo do meu irmão mais velho. P/3 – E porque vocês terminaram?

R - Ah, sei lá, acho que ele mudou de escola. (risos) É foi isso, ele foi estudar no Objetivo.

P - Bom, então eu vou continuar perguntando em relação ao teatro, como foi a evolução, depois que você fez o curso, você já começou a trabalhar?

R - Aí eu já comecei a trabalhar, não ganhava dinheiro com isso, mas trabalhava, fazia peça em escola, espetáculo vendido, em Santo André. E aí, eu e mais três pessoas que estudaram comigo, a gente resolveu fazer um grupo de estudo de Comédia dell’arte, de teatro de rua, aí a gente convidou a Soraia para dirigir, a gente fez uma peça. Na verdade a gente ainda não tinha esse grupo, era eu, a Juliana e mais uma menina. A gente fez Dom Quixote na rua, a gente ensaiava na praça, essa praça aqui em cima. Aqui, bem na Delfina. A gente ensaiava na praça porque a Soraia mora aqui do lado, a gente ensaiava aqui e apresentamos no “Arte nas Ruas”. Aí a gente resolveu estudar para fazer um projeto, fazer teatro de rua e ir viajar, algumas cidades e ir viajando assim. Eu, a Juliana, Marcos e Leandro montamos um grupo que se chamava “Trupe Quintal” e a gente fez uma outra peça de teatro de rua, por conta própria a gente, cada um trabalhava em outros lugares, então dava para fazer isso. Eu comecei a trabalhar na Casa do Teatro, cada um fazia as suas coisas e por conta própria a gente se apresentava três vezes por semana nas praças, em quase todas as praças de São Paulo.

P - E tinha bastante gente assistindo?

R - Tinha, ajuntava bastante gente, tudo quanto era tipo de gente.

P - E era anunciado no rádio, como as pessoas ficavam sabendo?

R - As pessoas ficavam sabendo ali naquele momento, não tinha divulgação nem nada. A gente passava e ia chamando as pessoas, com uma música que a gente ia cantando assim, tocando e ia ajuntando gente. Teve umas coisas muito interessantes, numa praça na Lapa. Tinha um cara que vendia erva, e era um lugar perfeito, a gente colocou as coisas do lado e ele falou “Não, vocês não podem apresentar aqui, aqui é meu espaço”. Aí até que ele cedeu o espaço dele pra gente apresentar ali, era engraçado assim. A disputa dos espaços nas praças. P/3 – Cada dia, no fim de semana, vocês escolhiam uma praça?

R - Segunda, quarta e sexta, não era de fim de semana.

P - Que horas?

R - Meio dia.

P - Como era esse negócio das disputas dos espaços nas praças, eu acho interessante isso. O que você achou das praças de São Paulo, tem dono, não tem?

R - Tem, tem. Todas têm aquelas pessoas que habitam aquele lugar. È legal você, com o teatro de rua, tem que pedir permissão também pra entrar nesses espaços que já tem dono. Não é chegar lá e... precisa de um certo cuidado com uma praça porque as pessoas tem vínculo com aquele lugar. Aí a gente apresentava e passava gente no meio, e era um momento dele assim, eram mendigos, e pessoas que surpavam em ver aquilo, entravam e queriam ficar ali, participando. Participava mesmo, porque a gente colocava eles dentro mesmo. Era um grande momento. Tivemos coisas maravilhosas. E teve esse projeto que não foi para frente, a gente estava escrevendo um texto. Porque esse foi o grande teste, vamos ficar um ano pra ver o que é, pra ter uma certa experiência porque teatro de rua é uma improvisação o tempo inteiro. Vamos ter uma certa experiência. E a gente tinha esse projeto que chamava Baú Brasil que era pra ir viajar. Com o acidente, não aconteceu. A gente estava no ponto, mandou pro Ministério e tal. Estava aprovado, daí teve o acidente e meio que dispersou. P/3 – Se desfez o grupo?

R - Pro profissional sim. A gente se vê até hoje. A gente, além de tudo é amigo. Mas para esse projeto sim. Eu já não fiquei mais a fim. Porque o tempo de recuperação foi um ano e as pessoas tiveram que buscar outras coisas. Então foi natural essa dispersão. P/3 – e o que foi de maravilhoso, de marcante pra você?

R - Das apresentações? Principalmente dessa coisa de estar todo caracterizado com máscara, e as pessoas mais simples, não tem diferença entre um artista e eles. Isso eu acho lindo assim. Eles são também artistas, então eles têm o direito de chegar lá e interagir, Comedia dell’arte é improvisação o tempo inteiro. Então já é aberto para isso. Mas era uma participação que não era o fim, e era lindo porque cada dia que vinha alguém participar da peça era demais. Esses miúdos.

P - Eles punham alguma coisa e vocês iam na linha do que estava sendo proposto, é como se ele quisesse também participar, “eu quero também roubar isso”, era a história de dois ladrões, “também quero”. Era a mesma estória sempre. É um conto medieval chamado “O pastelão e a torta”. São dois mendigos que roubam um pastelão de um dono de pastelaria, sei lá. É mais ou menos isso, os dois roubam, tem a mulher que faz o pastelão. Uma era Namorada, um Pantalone, um Arlequino e um Briguella. Era uma bobagem, a estória não tinha nada em si, o interessante na Comédia dell’arte não é tanto assim, hoje em dia, o mais legal é a característica dos personagens. Como eles são interessantes por si. A estória vai sendo improvisada. Então era uma bobagem eram dois mendigos que queriam roubar um pastelão.

P - Dentro da Comédia dell’arte quantos personagens tem, quais são os personagens?

R - Acho que tem nove.

P - Vocês faziam quatro. Fala um pouquinho.

R - Tem o “Pantalone” que seria a representação do velho rabugento rico, dono de coisas, mercenário. Tem o “Dottore” que seria a representação da sabedoria, ele sabe tudo de tudo, ele é um doutor de tudo, patético, ele vai emendando uma coisa com coisa e não tem lógica nenhuma, mas só de falar coisas, vai indo, vai indo, vai indo... só por saber . O que é saber? Não é nada. A Comédia dell’arte é uma grande crítica, quando ela apareceu era bem isso, uma crítica a essas pessoas, a esses padrões de sociedade. Tem os servos. O Briguella e o Arlequino. O Arlequino é o faminto, é o avô do palhaço, é o faminto, o que existe pra ele é só o momento presente. Tudo pra ele, ele quer ver se dá pra comer. Ele precisa primeiro suprir essa necessidade. Burro, burro de tudo, ignorante. Mas extremamente feliz. O Briguella que é um pouco mais esperto, tem uma certa noção, bola planos. Aí tem a Namorada, apaixonada sempre. P/3 – Não é apaixonada por um deles?

R - Não, é uma apaixonada, aí nas estória aparece ela apaixonada por um capitão. Ela acha ele super corajoso, ele se acha super corajoso e na verdade é um grande covarde. Ele fica contando glórias de batalhas e batalhas e quando aparece um perigo “Socorro, socorro, preciso salvar uma donzela” e vai embora. É uma grande crítica a tudo isso.

P - Você falou de quase todos. Não sei se foram todos, ou ainda tem personagens.

P - Buchela

R - E latino.

P - Então, você estava contando que você estava lá porque você pretende fazer viagens. São 10 viagens, começaram por São Paulo. E aí você teve um acidente, e foi muito feio?

R - Aí, a gente completou esse ciclo das praças. Aí eu fui fazer o caminho de Santiago de Compostela. Passei um mês andando. Quando eu voltei, eu voltei completamente querendo outras coisas.

P - Tinha havido uma mudança de pensamento, antes de você...

R - Já tinha, mas eu ainda tinha _____-esse projeto. Eu queria muito, tanto é que eu saí um ano da Casa do Teatro, porque eu queria estudar mais _____ , me dedicar mais e nesse ano eu estava tendo muito tempo. Aí, quando eu voltei do Caminho, eu não conseguia mais andar de carro, e aí eu comecei a andar de bicicleta...Foi quando aconteceu...

P - Então, espera aí. Conta isso que eu acho muito interessante. Conta como é que foi esse Caminho de Compostela.

R - Eu já tinha ouvido falar nesse Caminho, mas nunca tinha tido vontade.aí, eu comecei a namorar um menino, João Guilherme, que é um grande amigo meu até hoje, que acompanhou todo acidente. Eu comecei a namorar com ele e daí a um mês ele ia fazer o Caminho. Já estava tudo pronto. Aí eu falei: “ Eu vou junto.” Eu não fui por nenhum motivo ..” Vou lá, vou conhecer...” Não foi por nenhuma coisa meio mística. Eu fui porque é mais simples.

P - Que idade você tinha?

R - Eu tinha 20... Por aí. 22. Faz três anos que eu fui. O caminho é maravilhoso. Chegou lá, a gente não conseguia... A gente andou uma semana um pouco junto, depois a gente fez o caminho sozinho, a gente se encontrava em alguns lugares mas fez cada um por si, porque é uma coisa muito solitária.

P - O ritmo de cada um é diferente?

R - O ritmo de cada um é diferente e ele andava mais rápido e se ele fosse andasse mais me esperar ele se cansava, é uma coisa assim, todo dia você chega num ponto de limite físico e mental.Tudo fica a flor da pele, suas irritações seus medos, suas vontades, tudo. É como se você se permitisse hoje em dia sentir um e lá vai para dez o volume, se tivesse um... Tudo muito intenso, então é muito bom ficar sozinho…

P - Quanto você andava por dia? Tinha um limite de horas?

R - Em média uns 25 quilômetros por dia, mas teve dias que eu andei 10 quilômetros como teve um dia que eu andei 50 quilômetros. É o ritmo que o corpo ia, não é o tanto que você quer. É o tanto que você pode, né.

P - Você definiu o ponto que você queria chegar?

R - No começo tinha que se definir porque onde a gente dormia, os albergues, de tanto em tanto, de cidade em cidade. Depois de uma semana de caminhada, tinha albergue em mais cidades. Então as pessoas se distanciavam mesmo, cada um fazia no seu ritmo. No começo era um grande esforço você ter que dormir, você ter que chegar no albergue. Teve muitas noites que eu dormi na praça. Teve uma noite que eu não consegui chegar em lugar nenhum e eu tive que dormir numa praça que foi maravilhoso.

P - Em que mês do ano você foi?

R - Eu fui em julho, verão.

P - E tinha muita gente fazendo? Você conheceu pessoas?

R - Conheci, tinha muita gente. Se eu fosse fazer de novo, não faria em julho. Tinha albergues que não tinha lugar. A gente dormia em igreja abandonada, assim aqueles que sobravam, porque eles têm um grande cuidado com os peregrinos. As pessoas se imobilizam por demais para cuidar. Tem até aqueles que querem pegar em você achando que você é santo. Eles têm uma relação muito diferente, eles fazem tudo por um peregrino. Você chega num lugar eles querem lavar seu pé.

P - Aconteceu isso com você?

R - Tinha uma que queria furar as bolhas, porque eles costuram as bolhas para não inflamar, não infeccionar. Tinha um albergue que tinha uma pessoa costurando as bolhas.

P - Eu achei que tinha um caráter turístico, então não tem. Tem um caráter espiritual?

R - Tem um caráter super religioso, tem gente de tudo quanto é religião, com motivos muito diferentes. Tem gente que vai por esporte. Mas uma coisa maluca que acontece é que cada um... eu conheci um senhor que mora no Rio, que ele foi com uma mochila pesadíssima, tinha até raquete de tênis, tinha terno. Eu achei que ele estava pagando alguma promessa porque ganhou algum campeonato de tênis. Ele falou que não, que ele tinha ido jogar tênis com uns amigos na Europa e ele resolveu fazer o caminho, ele queria fazer 50 quilômetros por dia. Só que ele já tinha conseguido e quando eu conheci ele falei pra ele “Se você já conseguiu, porque você não vai embora, se esse era o seu objetivo?” “Não, porque eu preciso chegar.” Era engraçado, num determinado momento, cada um foi pra lá com um objetivo, mas naquele momento de um mês, todo mundo tem o mesmo objetivo que é chegar em Santiago.

P - Acaba sendo um objetivo comum?

R - Um objetivo comum, isso faz com que as pessoas fiquem muito mais, cuidando um do outro porque está todo vivendo as mesmas coisas, as mesmas dores, as mesmas subidas, as mesmas descidas, a mesma falta de água, de comida. Isso é muito interessante, por mais que as pessoas pensem completamente diferente, alguma coisa faz com que ela pense, tem um mesmo objetivo num determinado tempo da vida dela. Isso é uma coisa que eu não... Eu fui sem expectativa nenhuma e voltei com muitas coisas boas.

P - O que mudou? A maneira com que você encarou, acha que acrescentou para você?

R - O que mudou, o que foi muito radical, uma mudança é que eu comecei a dar um valor incrível pras coisas miúdas. Tipo, que quando eu voltei que me fez andar de bicicleta. Eu ia trabalhar, eu não queria mais: estou na minha casa – estou no trabalho. O trajeto de ir de um lugar para o outro é como se fosse a coisa mais importante, é um detalhe que a gente não... eu acho que eu aprendi a olhar os detalhes, quão prazeroso é beber água, quão prazeroso é andar. E é uma coisa absurda. Quando eu voltei pra cá, eu não conseguia ficar. Eu fazia milhões de coisas, capoeira, dança, kung-fu. Ia de bicicleta pra todos os lugares, da minha casa até a Granja Julieta, de bicicleta, treinava, voltava. Era um absurdo, eu virei uma máquina, eu não conseguia parar. Até que eu fui atropelada.

P - Você estava de bicicleta?

R - Estava, estava de bicicleta. Porque eu não conseguia andar mais de carro.

P - E como foi esse atropelamento?

R - Eu estava indo da minha casa, eu estava fazendo um curso de máscaras, com um grupo do Rio. Não sei se existe ainda. Aí eu estava indo da minha casa até o curso. Eu estava indo de bicicleta, daí tinha um ônibus na Av. Paulista. Tinha um caminhão de coca-Cola na faixa dos ônibus, e eu andava entre a faixa do ônibus e a primeira faixa de carro que era um espaço bom. Os ônibus ficavam ali e tinha um espaço bom, dava para passar um carro, uma bicicleta. Um ônibus me fechou e eu caí. Eu não sei se a roda passou por cima ou se só bateu, não sei exatamente porque eu só senti a dor, a batida.

P - Eu não entendi, o ônibus brecou?

R - Tinha um caminhão e eu estava aqui. O ônibus foi ultrapassar. Só que ele foi ultrapassar e eu estava no meio e ele foi voltar e aí eu caí e a roda de trás do ônibus, eu fiquei bem no meio, e a roda de trás do ônibus que pegou. P/3 – Foi que horas isso, à noite?

R - Não, de manhãzinha assim. Umas 9.30 – 8.30 hs. É 8.30 hs.

P - Bem e aí quem te socorreu, como foi? Você perdeu os sentidos?

R - Não, não perdi. Eu queria levantar porque eu pensava “Meu, eu vou ser atropelada” E já tinha sido. Eu falava “Eu preciso levantar pra sair daqui”. Aí eu vi que eu não conseguia. P/3 – Você não sabia que ele tinha passado em cima de você?

R - Não. Eu sabia que eu não conseguia me mexer.

P - e aí alguém veio te socorrer?

R - Aí começou a juntar gente, aí teve um cara que pegou na minha mão e falou “Calma”. E esse cara é amigo de uma amiga minha. Aí eu lembro que eu fiquei esperando a morte, porque doía muito, era um absurdo. Eu achava que eu nunca ia ter medo da morte, mas naquela hora eu senti um puta medo. Aí eu falei assim “Acho que eu vou morrer”. Eu fiquei esperando assim, fiquei esperando. Eu falei assim “Se eu for morrer, me manda alguém para me ajudar que eu estou com muito medo e fiquei esperando. Mas eu aparecia, eu olhava para as pessoas e falava, “Mas está tudo igual, isso continua sendo a Av. Paulista”. Pra mim foi um tempo enorme, mas eu fiquei 20 minutos lá, e não aparecia ninguém e eu falei “Não eu não vou morrer e o que eu posso fazer agora? Eu estava num momento em que todo o momento era importante, o que eu posso nesse momento. Naquele momento eu não podia levantar, eu não podia fazer nada, a única coisa que eu podia era respirar. Eu falava “Concentra na sua respiração.” E eu ficava só respirando. Aí teve um cara que falou “Você quer que ligue pra quem, eu dei o telefone da minha mãe, minha mãe chegou lá na hora, meu irmão chegou lá na hora, aí chamaram o resgate. E eu só me concentrando na respiração. E esse cara, eu me lembro muito bem que esse cara falou assim “Calma, calma que vai dar tudo certo.” Foi a melhor coisa que eu podia ouvir. Ele nem sabe como foi importante. É mesmo, foi uma grande certeza que eu tive naquele momento, essa voz, esse cara que falou isso. Jorge, ele chama, amigo da Biê. Aí eu fui para o Hospital.

P - Você foi resgatada pelo Resgate do Corpo de Bombeiros, eles foram legais?

R - É foi pelo Resgate. Eles foram maravilhosos. Eles foram demais, eles chegaram rápido, eu já estava numa situação muito... Eu não perdi a consciência.

P - Você não desmaiou de dor?

R - Não. Alguma coisa me falava se você dormir você morre. Então respira, se você dormir você vai parar de respirar. A única obrigação que eu tinha era respirar e para eu respirar eu tinha que ficar acordada. Aí eles me pegaram, não podia beber água. Eu pedi água, porque me deu muita sede, e esse cara disse “Eu não posso te dar água.” Esse cara entendia de primeiros socorros, acho. Eu falava “Só um golinho, eu estou com muita sede.” “Mas não tem água aqui.” “Tem, na minha bicicleta”. Eu tinha total consciência de tudo que estava acontecendo. Ele me deu um gole de água que estava na bicicleta e aí eles me botaram num carro, fui respondendo onde eu morava, fui respondendo um grande questionário até chegar no Hospital das Clínicas. Antes de eu entrar no resgate, uma coisa maravilhosa assim que eu vi o que era ser mãe, a hora que eu estava entrando na maca, minha mãe falou assim – completamente desestruturada – ela virou pra mim e falou assim “Força filha”. Completamente desestruturada, ela não tinha estrutura nenhuma e ela queria falar “Força que vai dar tudo certo, a gente está aqui.” Eu olhava e pensava “Gente, isso é que é ser mãe.” Sem estrutura nenhuma e ainda tem o instinto de cuidar. E aí que eu comecei a ver meus pais de uma maneira muito diferente, porque antes de ser mãe e pai, você é pessoa. Foi uma grande mudança. A melhor mudança depois desse acidente foi isso. Aí eu lembro do meu irmão caçula, o Marcelo, que chegou. Ele é uma pessoa muito firme, apesar de não ser muito, ele tem esse jeito. Ele segurou na minha mão, na rua e eu falava pra ele assim, não, não foi nessa hora não, nessa hora eu só via a minha mãe. Aí eu cheguei no Hospital e eu urrava de dor e falava “Me dá anestesia, por favor”. Antes de me dar anestesia eles tinham que tirar radiografia de tudo porque eu quebrei o joelho e a bacia fez assim, não se sabia como ia operar porque eu estava completamente torta, estava torcida, eu cheguei na maca torcida. Aí eles tinha que me mudar de posição pra tirar radiografia e eu gritava, gritava e olhava pra porta e minha mãe e o Marcelo. Eu chamei o Marcelo e falei “Está tudo bem, não se preocupa, eu estou gritando mas está tudo bem, vai dar tudo certo”. Depois que eu falei isso ele confiou um absurdo, ele era o mais otimista, ele sabe quando eu falo sério as coisas. “Não se preocupa que vai dar tudo certo.” Que mais...

P - Demorou uma eternidade até você ser anestesiada realmente?

R - Pra mim foi uma eternidade, eu não sei quanto tempo foi, em minutos. Tinham inaugurado um túnel que tinha passava de um prédio ao outro, por baixo. E eu na maca. A enfermeira era nova e ela não sabia passar pelo túnel e a gente se perdeu no túnel. Eu lembro de tudo isso.

P - Você não estava anestesiada?

R - Não, só morfina que eles me davam. Eu começava a ficar muito grogue, mas eu tinha consciência. Eu falei que eu estava menstruada, só que eles não ouviram. Não sei se eu falei de verdade, mas pra mim eu tenho certeza que eu falei. Eles achavam que tinha ferido algum órgão, tanto é que cortaram pra ver lá dentro. Eu lembro que eu falava tudo isso. Eu falava o que eu tinha comido de manhã, porque tinha que entubar, se eu tinha tomado café, quanto eu tinha comido. Eles queriam que eu assinasse um papel, e eu estava toda torta.

P - Você estava com tua mãe já?

R - Não, porque o Resgate falou que ia me levar para a Santa Casa e mudou de idéia no caminho e minha mãe foi pra Santa Casa e eu fui sozinha para o Hospital. Tinha que ser responsável pela burocracia.

P - Porque não tinha um acompanhante que podia ir com você no resgate?

R - Não podia. Aí eu falava pra aquele monte de menino, eu nunca tinha entrado num Hospital como paciente.

P - Te levaram pra onde, pro Pronto Socorro?

R - Pro Pronto Socorro do HC. Eu olhava e falava “Só tem menino aqui”, achava muito jovem, será que vai ter alguém que vai saber cuidar de mim? Até que veio um cara mais velho, me olhou assim, o Dr. Jorge, que é amigo de um amigo meu. Depois a gente vai descobrindo essas coisas. Eu nunca esqueço, ele olhava assim, um olhar muito arrogante, no processo, o último dia que ele foi cuidar de mim. A mudança desse médico.

P - ele foi o primeiro médico que te atendeu?

R - Ele foi o médico que me operou de verdade.

P - Aquele que te acompanhou?

R - Da parte da bacia. Porque a medicina olha a gente como partes. Tinha a equipe da bacia, a equipe da pele, porque eu também perdi toda a pele da perna e tive que fazer enxerto. Então eram vários grupos, a equipe da infectologia, a equipe do não sei o que. Você que tem que administrar tudo, e é uma coisa absurda num hospital público, eu não teria direito na UTI e na semi UTI, não podia ficar ninguém comigo. E não sei se esticou ou alongou os tendões do meu corpo então eu não tinha força de levantar minha perna e eu nem podia me mexer. Eu fiquei na mesma posição dois meses e meio. Aí pra eu me mexer, pra dar uma folga, aí começa a dar bolsa de água, de pus. É super problemático você ficar na mesma posição. O Calcanhar começa a dar um negócio, vai dando outro tipo de problema. Pra você se mexer de outra posição, eu ainda tinha que fazer um trabalho de conquistar cada enfermeira de cada turno. Eu falava “Me mexe”, porque se não elas falavam “Depois” e ficavam tomando cafezinho. Um absurdo Então, além da situação você ainda tem que conquistar esse tipo de coisa num hospital público.

P - Como foi, você entrou e foi logo operada? Como foi o processo?

R - Fui logo operada.

P - Que equipe que te operou, que cirurgia você fez?

R - Aí esse Dr. Jorge, que é um super médico de bacia, ele fez uma coisa que foi até meio nova. Depois ele levava meu caso para dar aula na faculdade. Ele me operou de costas, talvez porque o joelho estivesse quebrado. Me operou de costas, colocou dois parafusos na bacia, que o parafuso chega assim, o final da coluna é aqui e o parafuso chega até aqui assim. Foi super risco. Eu não sabia que tinha sido tão grave esse acidente. Só depois de uma semana é que eu fiquei sabendo. Aí eu operei a bacia, devem ter operado o joelho junto porque quando eu acordei eu já estava retinha de novo. P/3 – você chegou lá e falou par o teu irmão “Não, está tudo bem.” E você sentiu do hospital, dos médicos, em algum momento ali, essa certeza que estava tudo bem foi expressa?

R - Não, foi um absurdo. A cara que os médicos faziam quando eles me viam. Era um absurdo, era Âhn... um certo pavor. Ainda bem que eu sou uma pessoa que eu quero uma coisa eu esqueço um pouco tudo que está em volta porque se eu me baseasse nesse tipo de reação, nunca eu iria ter força pra acreditar que ia dar certo, nunca. Pelo olhar do médico, tipo “Vamos ver o que eu posso fazer”, o olhar dos residentes “Nossa, ela está chocada”, eu falava “Me dá um apoio pro braço.” Eu não tinha força pra fazer nada. Eu cheguei no hospital sem pulso e sem pressão, eu não tinha mais sangue no corpo. Eu não sei como eu tinha consciência porque eu era pra estar em coma fisicamente. Eu acho que eu até estava em coma fisicamente. Eu me lembro de tudo, eu me lembro que eu falava, eles perguntavam se eu tinha alergia e eu falava que eu tinha alergia de borrachudo. Todos esses detalhes eu tinha completa consciência e por isso que eu acho meio maluco. Eu falava “Dá um apoio pro meu braço”, aí já começaram a colocar soro, essas coisas. “Dá um apoio pro meu braço que eu não estou conseguindo fazer força pra manter”, a maca é muito pequenininha pra manter ele apertado, eu queria relaxar um pouco. Eles falavam “Calma, calma, calma”, eles completamente desesperados. Eu tinha que cuidar de muita coisa junto, não dava pra cuidar só da dor. Eu tinha que fazer uma social, um absurdo. E uma cara de nojo, uma coisa bem absurda. P/3 – Os médicos e as enfermeiras?

R - Isso era mais os residentes.

P - e sua mãe chegou em que momento?

R - No momento das radiografias.

P - Aí eles ficaram te acompanhando?

R - Não, acho que não. Ah, a última coisa que eu lembro quando eles falaram “Nós já vamos te entubar pra te anestesiar, você precisar relaxar porque nós vamos colocar um tubo pela sua boca, e isso foi a última vez, eu lembro que isso foi um pouco depois da radiografia.

P - E te falaram que iam te operar, o que iam fazer?

R - Não, só falaram que iam me anestesiar, eu imaginava mas eles não me falaram. Eu me lembro desse desespero assim, de não saber o que fazer comigo, porque foi um caso meio grave. Meio... completamente grave. Eu saí de risco de vida depois de quatro dias, e ainda passei pelo risco de ter que amputar a perna.

P - Você ficou quatro dias na UTI, é isso?

R - Na UTI mesmo acho que eu fiquei um dia, na semi UTI eu fiquei uma semana.

P - E quando você voltou à consciência, como foi?

R - Na UTI mesmo eu já acordava. Eu tinha uma necessidade muito grande de saber o que estava acontecendo, porque eu vi que ali eu tinha que cuidar de mim. Eu não senti, em nenhum momento, “Ah, está bom, vão cuidar de mim.” Em nenhum momento.

P - O que te passava isso,que não ia ser cuidada?

R - A frieza, principalmente. Eu sabia que ali eu não era uma pessoa, eu era algo a ser cuidado, trocar o curativo, algo a se dar banho. Eu era um trabalho pras pessoas e não uma pessoa. Um objeto de trabalho. Isso deixou com que... deixa eu cuidar de mim, pelo menos da saúde mental. Eu lembro que eu já acordei e pedi pra tirarem o tubo porque eu já estava boa. Eu ache que eu já ia pra casa, que eu só tinha quebrado a perna. Aí depois de quatro dias que meu pai me falou que eu quase morri. Até então eu queria sair porque eu tinha compromisso. Quando eu caí...

P - Você perguntou pra alguém se tinham te operado? Ninguém veio te falar?

R - A primeira vez que abriram o curativo da minha perna veio toda uma junta médica, muito médico. Eles não falaram Bom Dia. Eles chegaram, esse Dr. Jorge que depois mudou um pouco comigo, ele já abriu o curativo, já foi mostrando tudo que estava acontecendo. P/3 – Foi seu primeiro contato com a perna?

R - Foi. P/3 – Você nem imaginava como estava?

R - Nem imaginava e ele não falou nada.

P - E você viu tudo aquilo?

R - Vi, vi. Era um hematoma bem preto. Primeiro que eu já tinha uma perna bem grossa, por fazer tanto esporte, e era uma coisa muito absurda porque já estava muito fininha, minha perna. Aí eu já tinha percebido que eu tinha perdido massa muscular. E estava, sabe quando bate e fica roxo, preto? Estava esse roxo preto na perna e na pele toda e uma costura absurda, uma costura muito grande, muito grossa da virilha até o tornozelo, com fios pretos. E estava inteira preta, como se tivesse... Tinha até coisa de pneu. Aí eu olhei aquilo e falei “Caramba”. Eu imaginava que era roxo e com o tempo ia passar. Um pensamento completamente otimista. Eu não sabia que aquilo era pele necrosada, que depois eu ia ter que fazer um enxerto, quanto tempo eu ia ter que ficar ali. Eu não sabia nem o que tinha acontecido comigo e não me falaram nada. Só depois quando meus pais vieram me visitar. P/3 – Mas na hora você não perguntou o que aconteceu?

R - Eu perguntava, mas era uma coisa assim Emílio, quebrou, então vamos dar aula. Era um absurdo, não tinha... dava raiva. E não tinha um cuidado, vinha mexendo e doía. Eu falava “Está doendo Era como se... você quer ficar boa, então agüenta. E esse mesmo médico chegou pra minha mãe e falou “Não tem chance, vai ter que amputar mesmo”, não tinha nenhuma esperança, nenhuma. Por isso que eu acho que esse cara mudou, ele viu que não é assim.

P - Como foi essa mudança, eles acharam que não tinha nenhuma chance, em primeiro momento provavelmente. Quando que eles viram que tinha chance, como foi essa história?

R - Da parte deles eu não sei.

P - Mas foi uma evolução natural do caso?

R - Primeiro foi assim, que ele me operou e que saiu da cirurgia ele falou pra minha mãe que tinha muito pouco risco de eu viver, muita pouca chance de eu viver. Começou assim. Aí foi indo, eu melhorando mas com essa coisa de eu amputar a perna. Vai ter que amputar, talvez dê uma puta infecção. Aí em uma semana eu saí do risco de vida e do risco de amputar a perna. Em uma semana eu saí disso tudo. Eu tive uma infecção, mas não era a infecção que eles estavam esperando. Eu tive uma certa infecção, tive que tomar antibiótico durante todo mês que eu estava lá. Mas em uma semana... Eu tinha aquela coisa “Eu não posso perder tempo”, eu ficava pensando: “Células se multipliquem, células se transformem”, eu fechava o olho e ficava imaginando cada partezinha do meu corpo, das células se reestruturando, se refazendo, saindo o roxo, voltando a cor normal da pele. E tudo assim, eu não perdia tempo, enquanto eu podia ficar acordada eu pensava que eu estava melhorando.

P - A consciência do que tinha acontecido com você, até o teu pai vir te contar, você ia deduzindo, como você via teu corpo. É isso?

R - Então, eu acho que eu sou tão alienada. Eu achei mesmo que aquilo fosse roxo de batida, e eu achei mesmo que eu só tinha quebrado a perna. E quando meu pai me contou e falei “Nossa, como eu não pensei nisso antes?” Um pouco de alienação mesmo.

P - Aí teu pai te contou o que, ele contou espontaneamente, você perguntou pra ele?

R - Não, ele contou. Ele falou “Filha, você sabe o tanto que foi grave esse acidente.” Porque eles viam que eu estava brincando ali naquele lugar, porque eu falava se eles podiam me liberar pra eu assistir uma aula. “Será que eu posso ir fazer minhas coisas e voltar? Eu volto.” Pra mim não era tão grave. Eu ficava brincando, eu não faço xixi, tem uma sonda, olha que demais. Eu achava uma idiotice tudo, palhaço. Qualquer bobeira tem graça. Aí ele falou “Você sabe que é bem grave, você quase morreu.”Aí foi um baque, eu falei “Nossa”.

P - E quanto tempo você ficou no hospital?

R - 33 dias.

P - E sozinha, porque não podia ter acompanhante.

R - Então, aí a gente deu um jeitinho porque a Arisco patrocinava uma pesquisa do HC e meu pai trabalhava lá e o dono da Arisco falou... O que a gente conseguiu é que eu ficasse na ala de criança pra ficar um responsável comigo. Mas depois disso ainda fui para casa e depois de três meses eu voltei pra casa pra fazer uma cirurgia no joelho. Daí eu fiquei sozinha, não tinha mais tanta necessidade, eu não estava mais tão abalada.

P - Você ficou onde no HC, na ortopedia? Em que prédio, você lembra?

R - Instituto de Ortopedia e Traumatologia, I.O.T. Senão eu teria ficado sozinha numa situação dessas. Senão para eu me mexer, eu tinha que gritar a enfermeira, na hora que ela pudesse vir, ela viria me dar comida porque eu não tinha condição de comer. É um absurdo.

P - E você presenciou essa situação com outras pessoas?

R - Depois eu passei por isso, nessa outra cirurgia que eu fiz no joelho. Ainda bem que eu andava já nessa época, que foi três meses depois. Mas era um absurdo, tinham pessoas que não podiam... é chocante. As enfermeiras, não todas, porque têm pessoas maravilhosas que são anjos. Interferência

P - Você estava contando que você foi pra casa depois voltou pra ser operada de novo. P/3 – Estava falando dos anjos.

R - As enfermeiras não são reconhecidas toda uma situação social que já é difícil. Ma ali têm umas que executam uma função e elas fazem como elas estão a fim. Não quero te mexer agora, não quero sair daqui pra mudar você de posição. P/3 – E é a maioria?

R - A maioria é. Eu fiquei lá um mês, deu tempo de conquistar muitas. Eu me dedicava bastante com isso, eu não ficava revoltada com isso. Se eu me revoltasse, aí seria uma briga feia. Eu entendia o lado delas, é difícil a situação e eu também olhava elas como humano, antes de ser enfermeira e antes de estar ali pra me ajudar, me servir, me cuidar. Isso foi bom porque a gente pode conquistar muitas, que eu achei que iam me matar. Terror assim. Uma enfermeira à noite que liga a luz, Puf, já vai te furar, não dá tempo nem de você sonhar. É o tempo inteiro, a qualquer momento vai vir dor. Tinham algumas que tinham um cuidado um absurdo, talvez tenha sido fruto de uma relação que a gente estabeleceu por mim e por elas.

P - Eu queria voltar assim um pouquinho pra acompanhar o teu processo. Depois que teu pai te contou a gravidade, como foi isso pra você, como você foi assimilando isso. Isso mudou alguma coisa naquele processo que você estava de não ter tempo pra perder.

R - Mudou assim, eu passei talvez meio dia chorando. Porque aí eu falei “Como você viaja, olha o que te aconteceu e olha o que você pensa” Aí acho que deu uma deprimida porque eu falei “Puta merda” Aí passaram todas as questões que não tinham passado na mesma hora, tipo: Quase que eu morri mesmo, e se eu morresse. Aí foi uma reflexão meio geral. Aí me deu muito medo de ficar sozinha, naquela situação, naquela semi UTI, mas depois eu falei “Agora é mais que tudo, concentre ainda mais suas energia pra sair logo. Aí foi uma questão de honra, o que falavam pra mim, eu comecei a pirar naquela coisa do médico ser tão frio. A medicina hoje tem um padrão porque a maioria das pessoas se recupera em tal período, o tempo de recuperação é esse. Isso é mentira, isso não é real. Falavam pra mim: “Você vai sair daqui do hospital daqui a dois meses” eu falava “Não vou.” Virou uma questão de honra eu melhorar. Eu falava “Eu posso”. Eu tinha acabado de fazer o caminho de Santiago, eu sabia o tanto que eu podia, não de andar mais ou de andar menos, mas eu sabia que eu podia falar “Corpo, anda”. Foi exatamente o mesmo período do caminho e do acidente, um completamente ativo e o outro completamente passivo, mas os problemas eram os mesmos, as glórias eram as mesmas. No caminho eu passava por situações dificílimas que eu falava “Você tem que andar”, ou então “Você tem que parar” “Chega de andar, cuida de você”. E eu falava a mesma coisa “Você tem que melhorar, você tem que sair logo” porque eu não queria ficar lá. Eu me lembro que tinham pessoas em situações tão piores, situações de saúde mental tão piores que eu. Eu falava “Esse lugar é de louco” elas se deixam ficar a mercê desse tipo de comentário médico. Eu não acredito nisso, não é porque a maioria das pessoas se recuperam em tal tempo que eu vou me recuperar, eu não vou me encaixar numa porcentagem, eu quero ser eu, eu quero fazer a minha recuperação. Por isso que eu falo que foi uma questão de honra, eu olhava aquele médico. “Eu vou sair daqui muito rápido”. E tinha um humor que foi o que... eu queria conquistar aquele médico. Por tudo que eu penso da medicina, eu queria mostrar pra ele um pouquinho. Sabia que não tinha abertura pra diálogo nenhum. Eu só queria que ele entendesse que eu era uma pessoa, e aí foi muito legal que ele entendeu.

P - Como você percebeu isso?

R - Eu comecei a perguntar coisas pra ele que não tinha nada a ver com a doença, com a situação, do que tinha acontecido comigo. Eu comecei a perguntar quantas filhas ele tinha, qual era a idade da filha dele, se ela andava de bicicleta.

P - e como você teve certeza que ele mudou de comportamento?

R - A equipe mudou, a bacia estava OK e eu fui transferida pra equipe do joelho e mesmo depois disso ele ia me visitar, ia ver se estava tudo bem, se eu estava comendo. Ele não precisava mais ir.

P - E depois você saiu depois de um mês?

R - Saí.

P - A tua mãe ficou esse tempo todo com você?

P - come era a rotina, ela dormia, você dormia sozinha?

R - Ela podia dormir numa cadeira.

P - como era o dia-a-dia? O que acontecia?

R - Os médicos passavam bem cedo, seis ou sete horas da manhã, vinha aquele batalhão de gente que eu tinha que escrever as perguntas pra não esquecer. Se eu podia fazer isso, se eu podia fazer aquilo, se podia encostar a coberta, porque a minha perna estava em carne viva só depois de dois meses e meio que foi voltar a ter pele, até fazer o enxerto, tudo. Então eu tinha que anotar porque não tinha tempo. A gente tinha uma listinha de perguntas e a gente perguntava tudo. Às 11.30 vinha o almoço. A minha mãe sempre comigo. Eu só podia comer coisas do hospital. Eu normalmente não como carne, eu gosto de salada, de fruta, de peixe. Eu não gosto de feijão e tinha que comer feijão. Eu tinha que comer pra melhorar, mas não era prazeroso. Até que eu tinha duas amigas que faziam tráfego de comida. Eu comecei a melhorar porque eu comecei a comer melhor. Eu me lembro da a vez que eu tomei açaí, que eu adoro, e é super rico em ferro. É uma coisa meio birra isso. Não pode entrar comida de fora só porque os outros não podem passar vontade. É uma burocracia que não tem função. Porque o outro vai ver e vai ficar com vontade? OK, mas eu estava num lugar onde só tinha eu, então a burocracia funcionava mesmo assim.

P - Era um quarto privativo?

R - Não, era uma enfermaria mas eu fiquei sozinha nesse mês.

P - Foi uma exceção, digamos assim, não era regra. Foi uma regalia?

R - Foi uma regalia porque meu pai... foi uma regalia se não...

P - Como que era, você tinha dor, como era essa questão das dores.

R - Eu tinha dor, eu tive dor muito tempo. Eu tinha muita dor no joelho e era uma dor interna, não era uma dor num lugar. Uma dor no osso, uma dor de frio, uma dor profunda. Eles me davam muito remédio e a dor parava de vez em quando, eu tomei muito calmante. E era assim, doía muito. Teve uma vez que doeu um absurdo. Doeu mais que o acidente até. Eles foram trocar...

R - ... Eles foram trocar o curativo da minha perna, e estava tudo em carne viva e estava tudo grudado o curativo e eles foram trocar sem anestesia, um absurdo. Como não dão nem uma anestesia local. E trocando assim. Eu me lembro de uma enfermeira grávida fazendo isso. Eu urrava, urrava de dor assim. Isso foi uma dor mais do que o acidente. Eu me lembro que via a mulher grávida fazendo isso. É tão extremo da condição humana. Uma mulher grávida, esperando um filho, tendo que fazer aquela função e eu urrando de dor.

P - Mas você achava que não tinha condição de te dar uma anestesia, as pessoas... Porque não te deram uma anestesia?

R - Porque não foi prescrito. Quando o médico passou no outro dia eu falei “Olha, por favor, não faz mais curativo sem anestesia”, aí eles começaram a me anestesiar. É por isso. A burocracia é o que é mais importante num hospital, você é a última coisa. Você nem é pessoa lá, você é uma coisa. É horrível assim, ainda mais público. Eu ainda lutei muito pó coisas que eu achava que podia ter. Têm pessoas que não conseguem falar nada, só aceitam. Por uma miséria social, eles nem sabem exigir nada. Eles nem sabe que direito que eles têm.

P - E por que coisas que você teve que lutar?

R - De liberarem a comida foi uma. P/3 – Chegou um momento que eles liberaram?

R - Chegou um momento que eles liberaram aí eu podia comer tudo. Aí os caras da padaria, têm uma padaria do lado da minha casa, que tem três caras que são uns amores. Eles foram doar sangue, eles mandavam cafezinho, que eu sempre adoro. Tiveram coisas lindas. Tiveram coisas incríveis de beleza, de ser humano.

P - Dá pra contar algumas?

R - Então, esses detalhes, o cara da padaria ir lá doar sangue, ele mandar cafezinho. Gente numa situação muito pior que você te ajudando.

P - Gente que estava lá internada?

R - É. Enfermeiras assim, lindas. Enfermeira que passava a noite conversando. Detalhes engraçados. Depois eu ficava lembrando “Nunca achei que fosse existir isso no mundo”. Isso foi um pouco depois, mas teve uma situação tão patética. Depois quando você volta para as consultas, você fica ali esperando seu nome ser chamado. Isso é muito absurdo: uma mulher chamando “Fulano de tal”, no microfone naquele ambulatório cheio de gente, você chega às sete horas pra ser atendida às onze. “Fulano de tal, Atchim...” (risos). As coisas que são patéticas eu lembro muito. “Fulano”, nada. “Fulano”, nada. “Fulano”, aí vem um velhinho de muleta “Calma que eu estou indo” (risos). Porque tem pressa pra pegar o cartão. Eu acho bonito isso, porque é o outro lado da miséria. Coisas que eu ouvi de um cara. A gente passou pela mesma situação de infecção de enxerto. Eu chorando e ele “Calma, vai ficar tudo bem”, no outro deu infecção nele e eu consolando ele.

P - Isso ainda no hospital?

R - Não, depois, nos retornos. Aí ele virou pra mim assim... um cara, moto boy falou assim “Nunca deixa ninguém falar que isso é feio. Se alguém falar que isso é feio, você se afasta dela, porque ela não entendeu nada”. Esse tipo de coisa é lindo de ouvir. É uma simplicidade muito sábia, é uma bobeira, mas é um outro lado também. As pessoas que estão lá, que contornam essa burocracia. A fila de maca num corredorzinho e fazer a curva pra entrar num consultório. Tem fila de maca, então tem trânsito de maca. Uma pessoa está ali e desequilibrou na muleta e vai apoiar ali, “não, aí não”. É tão precário que se não fosse a solidariedade seria um absurdo. As pessoas se ajudam muito. Porque ninguém tem nada ali, não importa o quanto de dinheiro você tem, ninguém tem nada ali.

P - Quanto tempo você ficou sem andar?

R - Dois meses e meio. Quase três meses.Uma semana pra completar três meses. P/3 – Depois que você voltou?

P - O processo todo?

R - O processo todo. Aí eu andei de cadeira de roda por muito tempo. Quando eu pude andar de muleta, eu não podia tanto porque era assim, eu tive uma contradição: eu quebrei o joelho e perdi a pele da mesma perna. Então pro joelho eu teria que dobrar a perna na fisioterapia, mas pra pele não. O meu joelho só dobra até aqui hoje. Eu tive que ficar esperando primeiro a pele cicatrizar pra depois dobrar. Então quando eu já podia andar de muleta, eu não podia ficar tanto tempo em pé porque sangrava, ainda não estava completamente cicatrizado. Na verdade eu fui começar a andar sozinha depois de uns seis ou sete meses.

P - Então na tua internação você teve a cirurgia da bacia...

R - É, eu tive essa cirurgia primeirona, que foi bacia e joelho. Depois eu passei por oito limpezas, que eles chamam de limpeza cirúrgica que era pra limpar o que estava necrosado, a pele necrosada eles limpavam.

P - Que envolvia anestesia geral, era uma cirurgia?

R - Anestesia, aí eu tomava a raqui ou local. Ia pro centro cirúrgico. Fui umas oito vezes fazer limpeza, fui uma depois pra fazer enxerto. Foi uma coisa absurda essa coisa do enxerto, porque eles falaram “A gente só vai dar uma anestesia local” “Ah, tudo bem.” Eu já conhecia vários médicos, a gente tinha até uma brincadeira porque eu chegava lá dormindo e eles faziam a tala muito perto e eu ia fazer xixi e fazia na tala, ficava com medo de infeccionar. Aí eu ia com um bilhete, escrevia um bilhete porque se eu chegasse dormindo eu não podia falar, então eu ia com um bilhete pedindo pra fazer um pouquinho mais cavado pra poder fazer xixi. Então eu falei “Tudo bem, vai ser legal, eu vou ver vocês trabalhando”. Meu corpo foi acostumando muito com esse tipo de droga, então passava muito rápido o efeito. Aí a anestesia começou a passar e começou a doer na hora do enxerto, tirou um pedaço de pele daqui e da virilha pra por na perna. Aí eu falei “Está ardendo, será que poderia dar mais anestesia?”, porque estava ardendo mesmo, eu estava sentindo tudo. Eu pedi isso duas vezes pro anestesista quando ele passou, na terceira ele falou “Está bom, agora você vai dormir.” Colocou um tubo de anestesia e falou “Está bom, agora você vai dormir e parar de encher o saco.” Tinham pessoas e pessoas. Tinham médicos lindos e residentes lindos, residentes figurinhas.

P - Essas pessoas, essa vivencia depois você coloca... Qual o espaço que você teve depois, você nunca pode fazer uma reclamação formal ou formalizar alguma coisa em relação ao atendimento... Porque quando a gente fica comparativamente, bom tem esses bons e a gente usa isso pra se consolar. Mas um espaço efetivo pra falar dessas coisas que não funcionaram...

R - Não existe. Eu não acho que equivale, eu disse que tiveram coisas maravilhosas. É a mesma coisa que eu falo que tiveram coisas maravilhosas nesse acidente, mas não foi bom. É um absurdo do jeito com que se trata uma pessoa. Não vai ter nada de bom que eu vi que mude isso. O fato de eu ter visto coisas de bom, ainda bem que eu vi, poderia ser pior.

P - Talvez elas tivessem acontecido de qualquer jeito. Tirando a parte ruim, a parte boa ia acontecer. Eu quero dizer que a parte ruim aconteceu e foi péssima. A parte boa... o hospital poderia ter sido melhor. E a parte boa iria acontecer do mesmo jeito, entendeu? Ela não é uma compensação da parte ruim, ela é uma parte boa realmente.

R - Exatamente, poderia ter sido um processo lindo. Porque acontecem acidentes, vai saber Só você parar um momento da sua vida e repensar tudo que você já tinha dado como certo, todos os referenciais que você achava que você tinha, é um momento de crescimento tão enorme, e se as pessoas olhassem isso como uma coisa até sagrada, eles cuidariam muito para que você pudesse pensar só nisso. Seria um atendimento perfeito se fosse voltada pra esse crescimento, eu acho. É uma piração minha. Já é uma situação difícil e de maneira nenhuma você pode ser submetida a esse tipo de tratamento. É um desrespeito ao humano. Se as pessoas fossem cuidar de tudo pra que tudo seja bom pra que ela possa pensar só nisso, pra que ela possa refletir e se cuidar. Mas aí é o que eu acredito, nas coisas. P/3 – Marina, só pra gente, nesse assunto... você falou na enfermeira anjo, aí você falou de um moto boy que assumiu um papel de anjo, então naquele momento teve um certo povoamento de anjos. Será que você consegue identificar quem são esses anjos que estão presentes no hospital e quem são esses anti-anjos, pra não falar em demônios que estão por aí nos hospitais. O que vem pra você, nessa tua experiência, quais foram os teus anjos e quais aqueles que você queria fugir?

R - Eu lembro de pessoas, eu não lembro de um nome pras coisas. Eram pessoas, cada uma com sua individualidade. Não daria pra classificar, os anjos são os pacientes e os demônios... P/3 – Pra você alí, o que foi anjo nessa experiência?

R - Eu acho que anjo foram as pessoas que eu consegui olhar e que conseguiram comigo me olhar. Você é uma pessoa tanto quanto eu. Isso facilitou uma fluidez de coisas que eu chamo de boas e de anjos. As pessoas que já te viam direto como um número, como uma burocracia, isso eu não sei. As que eu pude ter esses momentos de anjo, me viram como pessoas e eu vi como pessoas, não como um personagem, você também é paciente e você também é enfermeiro.

P - Como era o uso do tempo nesse período que você ficou lá, você lia, você conversava, como esse tempo foi sendo administrado.

R - Eu li um livro, que foi uma situação muito engraçada – meio patética. Eu estava lendo um livro do Ocho (?) que chama “Antes que você morra”, é um livro todo bonito, filosófico, todo zen. Eu na semi UTI falei pra minha mãe “Trás o livro pra eu terminar de ler”, minha mãe chega na semi UTI com o livro “Antes que você morra” (risos). Eles acharam minha mãe louca. Eu terminei de ler esse livro e depois eu não consegui ler mais, eu não conseguia me concentrar numa coisa que não fosse aquilo. Eu comecei a assistir filme e desenho animado. A gente pode levar uma televisão. Eu peguei todos os desenhos, ficava assistindo desenhos, novelas. Eu ficava assistindo televisão porque q televisão é alguma coisa que você foge mesmo. O livro você tem que se concentrar e pensar. Eu ouvia muita música, eu passava praticamente o dia inteiro ouvindo música e nesse processo. Eu ficava imaginando que o ritmo da música era o ritmo que minhas células estavam evoluindo. Eu ficava me imaginando dançando e que quando eu respirava era como se mais saúde entrasse em mim. Então a música foi praticamente o dia todo. E quando eu não queria mais pensar nisso eu assistia televisão pra dar aquela fugidinha, tem que ter espaço pra isso porque é muito trabalho.

P - Quais eram suas músicas prediletas?

R - Eu ouvia tudo, Marisa Monte, Raul Seixas, tudo, Gil, Caetano.

P - Tua mãe ficava o tempo todo, como era?

R - Ficava o tempo todo. Eu tive uma tia que ficou também, ela ficou alguns dias. Mas minha mãe que praticamente ficou o tempo todo. Minha mãe revezava com meu pai. Minha mãe foi quem mais ficou, mas às vezes pra ela descansar, ia meu pai e meus irmãos. Que foi muito legal o que mudou da relação com os meus irmãos.

P - O que mudou Marina?

R - Primeiro assim... é engraçado, é como se a gente tivesse voltado a ser criança, mas numa situação completamente extrema. Eu via meu irmão caçula arquitetando um plano na cabeça dele, porque nessa época eu já podia mudar de posição, mas eu não conseguia me mexer, então na cabeça dele, ele arquitetava um plano pra saber como ele ia me mexer pra minha perna não fechar mais que isso porque não podia. Então ele trouxe uma mesa, punha a cadeira, amarrava meu pé de um jeito; e era uma brincadeira. O tanto que ele pensava nisso só pra me mudar de posição, um carinho assim absurdo. Meu outro irmão que também ficava horas passando no corredor. Eu tinha a visão de um corredor e ele ficava horas passando, ele passava de um jeito, voltava de outro. Ele ficava fazendo graça e a gente ficava rindo feito dois retardados naquele hospital. Isso foi demais com eles. E também uma coisa assim, não dá pra ter pudor. Eles tinham que me limpar, eles tinham que cuidar de mim, eles tinham que me colocar pra fazer coco, pra fazer xixi, eles tinham que me limpar. Esse tipo de pudor acabou, na relação. Isso foi muito louco, com todos, é (emoção demais, com choro). Tem coisa mais importante que isso. Mas foi muita coisa de conquista, depois que eu vi minha mãe naquela situação que eu defini que aquilo é que era ser mãe. Foi muito legal porque muitos conflitos, muitas questões com os meus pais mudaram porque eu nunca tinha pensado de verdade que antes de ela ser minha mãe ela era uma mulher e meu pai um homem. De ver muitos lados que antes... Minha mãe... E não é, tem muitas coisas ruins nas pessoas, muitos lados, porque eles são iguais. Todo mundo tem os seus lados, mas parece que filho é meio bitolado. O pai e a mãe. E é legal mesmo quebrar isso. Agora eu tenho uma relação de pessoa, por exemplo ela é uma mulher e eu sou uma mulher. Perdeu aquela coisa tão materna e paterna. Uma grande ruptura muito boa, muito boa mesmo. Classifico isso como muito boa.

P - Você acha que isso aconteceu porque mudou uma percepção tua ou por...

R - Porque mudou uma percepção minha. Por toda a situação talvez. Por uma percepção minha.

P - Aí depois de um mês você foi para casa. Como foi chegar em casa, sair do hospital?

R - Nossa foi demais. O médico falava pra mim “Você vai daqui a tantos dias”, eu contava os dias, eu queria muito sair de lá, aí ele chegou e falou “Você tem duas opções: ou você fica aqui até o próximo curativo ou você vai pra casa hoje e volta no próximo no próximo curativo.” “Eu vou pra casa hoje”. Então ninguém estava esperando que eu fosse sair naquele dia, foi uma surpresa linda. Era muito movimento, eu me lembro que nessa época eu descobri como andar cansa. Que como todo movimento nosso é muito desgaste de energia. Eu me lembro que pra sair da cama, colocar na cadeira de rodas, pra andar; andar de carro era um enjôo absurdo. Eu senti um enjôo, era muito movimento pra quem ficou mais de um mês praticamente na mesma posição. Eu lembro que eu saí e vi aquele sol e falava “Nossa, eu não estou acreditando.” É como se cada segundo fosse um deleite, até chegar em casa, até chegar no quarto, a cachorra que ficava latindo. Nossa que saudade da cachorrinha. Detalhes miúdos, o cheiro de casa, o cheiro do quarto, música. Engraçado, a minha casa era fresca.

P - Que mês que você teve o acidente?

R - Junho.

P - Junho, era inverno né?

R - Era inverno.

P - Você passou frio no hospital?

R - Não, no hospital não, mas em casa eu passei porque teve uma época que não podia ter nada em cima da minha pele. Era um puta frio. Foi uma arquitetura, teve que alugar uma cama de hospital, a gente passava uma fita na grade da cama, passava um pano, punha a coberta pro cima. Punha umas sete cobertas, porque não esquentava era muito alto. Eu passava muito frio em casa e quando eu chegava no hospital, tinha um médico que olhava e falava assim “Eu fiquei pensando tanto no frio que você deve ter sentido essa noite” O médico falava. Eu passei frio mesmo, mas o frio era o de menos, imagina. Tinha coisas que eu passava e falava “Vai”.

P - Amanhã vai fazer calor...

P - Você recebia visitas, tinha amigos, como foi esse período que você ficou em casa?

R - Foi, ia gente direto. Então tem uma coisa tão engraçada dessa coisa do hospital. Eu tenho duas amigas, uma psicóloga formada agora e uma é fonoaudióloga. As duas se vestiram de branco, eu fiquei uma semana na semi UTI, quando eu entrei na enfermaria, estava eu e meu pai. Assim, muitas pessoas acompanhavam muito e ficavam torcendo muito assim. Elas são amigas de infância, elas se vestiram de branco, entraram no hospital, e a Cíntia que é essa psicóloga e falou “Eu sou psicóloga da Marina, eu faço um tratamento com ela há muito tempo – eu não sabia de nada disso – eu gostaria de acompanhar ele, se eu pudesse visitar ela todos os dias.”eu não sei muito bem o que ela explicou, a Fe. As psicólogas do HC mostraram o prontuário pra Cíntia, nisso entra meu pai. Elas pensaram “Agora ferrou”, meu pai ia falar “Oi Ci”, não tem profissionalismo nenhum nessa relação. A Cíntia viu meu pai e falou “Inclusive esse é o pai dela, oi Sr. Marcos como vai?” Deu branco no meu pai e ele falou “Oi doutora”. Elas foram me visitar todos os 33 dias, sendo que elas não eram nada ali. Por causa de uma conversa fiada elas burlaram toda essa burocracia. Depois elas vinham todo dia, a gente ficava assistindo fita do casamento da Fe. É incrível como não é nada essa burocracia porque ao mesmo tempo impedi tudo, com uma conversinha fiada, você vai lá se vestia de branco, ela tinha estacionamento garantido, que lá é uma coisa muito difícil o estacionamento. O segurança tirava o negócio, ela estacionava no lugar do médico, ficava lá, conversando nada. Que cara de pau, que sistema.

P - Tinha limite de visitas?

R - Tinha uma visita por dia durante meia hora.

P - E elas podiam ficar o tempo que elas queriam?

R - É, elas podiam ficar o tempo que elas quisessem, um absurdo. Eu não acreditei quando elas chegaram lá, é muita cara de pau.

P - E aí, quando você voltou pra casa teve uma fase até você poder voltar a andar, depois teve uma fase de fisioterapia, você falou que o processo todo durou um ano.

R - É, ao todo um ano. Eu podia fazer fisioterapia no hospital que era uma fisioterapia... Eu lembro que foi uma das épocas mais difíceis a fisioterapia.

P - Depois que você voltou a andar?

R - Depois. Porque quando eu voltei, o meu joelho dobrava até aqui, tinha essa flexão. Isso é o máximo que você vai conseguir, ou no máximo você vai chegar até aqui, que você vai andar mancando. Eu falava “Eu não vou, isso é uma porcentagem que vocês estipularam, eu não vou. Eu vou conseguir dobrar até chegar no chão, isso é o que eu quero, isso é o que vai ser pra mim”. Aí a fisioterapia do hospital era assim, para dar certo tem que doer. E eu não acredito nisso, a dor ela vem, ela é conseqüência de uma série de movimentos. Pra dar certo tem que doer, não. Se não doer é porque você tem que forçar mais. É real por um lado, mas eu não acredito nesse tipo de medicina. Então eu faltava na fisioterapia do hospital e fui fazer hidro-terapia, super demais, a gente ficava fazendo na água. Doía pra caramba, mas a relação que ele tinha com a figura, você era uma pessoa, sentava, a gente ficava conversando um tempo ante de ir pra piscina, tomava um café, me diz o que aconteceu, o que é melhor. O que você está fazendo já, já dá pra voltar a trabalhar. Outra relação. Quando te vêem como pessoa você se sente com muito mais vontade de melhorar, porque se não você fala “Pro mundo ser assim, pra eu ser assim no mundo, um número. Ainda bem que eu fui buscar o meu. Então eu estava fazendo a hidro-terapia e continuava fazendo a fisioterapia. Fisioterapia é uma coisa muito difícil porque você precisa ficar horas fazendo uma coisinha, é um trabalho muito formiguinha, você não tem resultado, dói. Mas foi aonde foi a minha grande subida, eu acho. Minha grande montanha pra subir, um pé depois o outro porque é uma coisa que não tem resultado, é uma coisa que você não vê mas você tem que fazer, tem que passar por isso, meio dolorido. Aí quando eu entrei na hidro-terapia era mais gostosinho, gostava mais de ir. Até o momento que eu conseguia flexão pra andar de bicicleta. Aí eu fui andar de bicicleta.

P - Você foi andar de bicicleta?

R - Andei. Eu fui no parque, porque eu prometi pra minha mãe que eu nunca mais ia andar na rua. Eu fui no parque, peguei a mesma bicicletinha. Eu me estourei inteira a bicicleta fez assim no banco, entortou, não fez nada na bicicleta. Não caiu o negocio da água do cano. Aí peguei a bicicletinha, fui no parque, andei três horas de bicicleta, andei muito.

P - Não dói mais, não perdeu a mobilidade de fazer nada?

R - Não me impede de fazer nada. Me impediria, eu acho, se eu fosse fazer comédia dell’arte de novo, pra eu fazer um arlequino, com essa perna me impediria de fazer um arlequino. Por isso que um pouco eu desisti de fazer esse projeto do Baú Brasil.

P - Porque, o que exige?

R - Porque o Arlequino é uma figura que se comunica muito com o corpo, firula o tempo todo, fica de cabeça pra baixo, cabeça pra cima, cambalhota.

P - Exige maleabilidade?

R - Me impediria disso, mas tem tantas outra coisas que eu posso fazer que isso não é nada.

P - Esse período que você chama de um ano foi do acidente até que momento?

R - Até o momento que eu fui fazer o curso de Clown com a Kito. Eu já tinha feito, eu já tinha até feito a banda. Até o momento que eu pude fazer uma coisa feliz. Que eu chamo de quando foi o fim. Eu até andei com sete meses, andando mancando. Até nesse curso eu ainda estava mancando. Mas foi o primeiro momento que pra mim o processo terminou, que eu pude produzir uma coisa que era feliz, foi um curso rápido que sendo assim eu pude me divertir. Pra mim finalizou, começou. Ponto final no acidente.

P - E hoje olhando esse processo o que tem a Marina hoje, o que trouxe de transformação pra tua vida, o que mudou com esse processo?

R - (risos) Afirmou muitas coisas que eu pensava, mudou tudo. Tudo que eu... As coisas que hoje em dia tem valor para mim são completamente outras das que eu achava importante. O que eu dou valor hoje mudou. O que eu dou valor hoje pra o que eu dava valor antes. E muitas coisa que eu acreditava tipo “O que eu estou fazendo aqui no mundo”, principalmente o que te dizem pra ser assim – você vai sair daqui a dois meses. Eu consegui essas afirmações porque eu falei assim, não que seja dona do mundo, dona da verdade, muito pelo contrário.

P - Mas não se deixou aprisionar por isso?

R - É, esse tipo de afirmação, eu posso fazer mais do que essa sociedade me impõe, não bem a sociedade, mas esse tipo de pensamento que a gente tem que sofrer. Isso afirmou porque eu passei...

R - ...foi uma coisa que eu sempre tive vontade.

P - Eu queria voltar pra entender um pouco mais de como é pra você entrar num hospital. Interrupção

R - Ah, das coisas que eu afirmei. Eu posso mudar essa porcentagem que é estipulada para a saúde, pro tanto que você vai melhorar a cada dia. Esse tipo de coisa. Mudou muita coisa, é muito complexo, mas isso foi uma grande afirmação, não se deixar submeter a números.

P - Bom a partir daí você foi fazer aquele curso como se encerrou o episódio, você começou uma nova vida, vamos dizer assim. Você tinha parado o que você estava fazendo durante um ano. Você foi fazer o curso de Clown.

R - Fui fazer o curso de Clown, mas eu fui com a intenção de me divertir mesmo. Até cheguei pra Kito e falei “Quito, eu só estou aqui pra me divertir, nem pega no meu pé que eu só quero ser feliz, só estou aqui pra isso. Estou precisando dessa semana (não sei se era uma semana ou 15 dias).” Aí fui voltando aos poucos, fui voltando pra casa do teatro, voltei a dar aula. Aí fiquei um ano dando aula, foi super intenso o meu ano lá, bastante, pra muitas turmas.

P - Do que especificamente?

R - De teatro pra criança e adolescente. Eu já tinha mandado o currículo nos Doutores e recebi a cartinha, vamos lá, vai saber.

P - Desde quando você começou nos Doutores?

R - Tem dois meses só.

P - O que você já conhecia do trabalho dos Doutores antes de você ter entrado.

R - Eu conheço a Soraia bastante e o Cezinha que a gente trabalho junto na banda. Então eu conheci o cotidiano um pouco. Conhecia o que eles passaram. O que eu mais gostava nos Doutores, porque eu já trabalhei num hospital, na Associação Arte e Despertar pela Casa do Teatro, que q gente tinha que dar aula de teatro durante um período ali. Eu via umas coisas nos hospitais que me decepcionou, não era isso o que eu queria. E eu senti isso, tinham umas pessoas que iam, enquanto eu estava internada, de uma igreja – “Viemos aqui pra trazer um pouco de alegria pra você.” E iam cantar. Aquilo era uma invasão tão grande, tamanha invasão. Porque eu não queria aquilo, eles estavam precisando da minha atenção, não era eu que estava precisando da atenção de ninguém. Eram seres completamente carentes que estavam precisando da atenção de uma pessoa de cama pra ouvir a música deles. Isso era horrível. Eu vi isso muitos nas voluntárias dos hospitais, lá no IOP que eu trabalhei. Ai que gracinha. É um jeito de tratar o doente, é como se você acabasse de afirmar eu sou o superior e você o doente. Nos Doutores eu já sabia que não existia isso. Somos iguais e viemos aqui brincar. Não tem diferença nenhuma. Era o que mais achava legal, o que mais me dava vontade de trabalhar, mas nunca achei que tivesse experiência suficiente.

P - E como está sendo pra você entrar no hospital, vem fleches ou é outra...

R - É uma outra coisa. Porque acho que tem outra freqüência o raciocínio do palhaço que já esquece. Claro que não porque você tem que olhar de fora, vê onde você está indo. Até agora foi tudo muito prazeroso, muito profissional mesmo. Você tem que ir lá e desenvolver um jogo. Isso eu acho interessante, a doença não passa o que passa é a saúde.

P - Que hospital que você vai?

R - Estou indo no Emílio Ribas e no Candido Fontoura. Está sendo muito prazeroso, eu termino o dia, Ah, que demais que é trabalhar com isso. Eu tenho muita coisa, muitas coisas não me assustam, talvez assustariam. Muitas coisas eu estou acostumada a ver. Eu não sei se as pessoas se assustam com isso ou ficam um pouco “Nossa...” em nenhum momento também eu lembro do meu acidente. É muito outra coisa, uma outra situação.

P - E mesmo na tua vida, no teu dia-a-dia, as lembranças do que foi esse um ano não estão presentes?

R - Hoje em dia não, depois de um ano... como eu ainda voltava ao hospital, eu esquecia. Quando eu chegava lá que os médicos olhavam e falavam “Nossa, não acredito, é você. Menina que sorte que você teve, sua recuperação como foi boa” daí eu falava “Nossa, é mesmo, olha o que eu já passei, nossa, caramba, que vitória que foi”. Eu não me lembro muito. Não, lógico que eu sei, sei quando eu preciso ver o joelho. Esse processo é como se fosse o Caminho de Santiago, foi uma viagem muito boa, não boa no sentido... É como se fosse a lembrança do caminho.

P - E nesse trabalho nos Doutores da Alegria, independentemente da criança que você está visitando, você acha que consegue interferi com as pessoas do hospital, aí pensando no que você passou. Isso mudou alguma coisa ou não?

R - Eu não penso nisso. Eu penso eu sou palhaço e tenho esse jogo a desenvolver.

P - Se você quebra essa burocracia com esse trabalho?

R - Então, o trabalho em si já quebra. Eu executo o que é o trabalho. Mas por conta do acidente querer...

P - O acidente em si, Marina, você atribui a algum significado ou pra você é uma coisa do acaso. Você tem necessidade de dar um sentido para o que aconteceu ou não? Um significado ou não, não é uma coisa que te... Porque você, naquele momento? Você chegou a pensar nisso?

R - Pensei, na hora eu pensei. Eu tenho muitos amigos que andam de bicicleta até hoje. Nenhum usa capacete, nenhum usa proteção e eu usava tudo. A primeira coisa que eu pensei “Meu, justo comigo que ando toda protegida”, aí eu falei “larga mão de ser vaidosa, de achar que as coisas nunca vão acontecer com você”. Eu tenho uma coisa de achar que as coisas não acontecem em vão, porque você tem que aprender uma coisa com isso. Foi uma grande oportunidade que eu tive de aprender tudo que eu aprendi. Foi desse jeito, vai lá saber, sendo um acidente ou sendo tendo um filho. Essas coisas não me cabem entender. O que me cabe é “Eu tenho isso nessa situação, como vou sair ou passar por isso”, agora porque não sei.

P - Marina, a gente estava falando nessa coisa de não se ter espaço pra dar voz pra algumas coisas que você viveu e parece que não tinha aonde colocar. Não podia chegar no final e falar “olha o Dr. Fulano de Tal, isso aqui não funciona”. E no final você tem ainda que dizer muito obrigada porque salvaram a tua vida. Se você pudesse ter tido esse espaço, o que você diria e pra quem. Ou você diria pra alguém das coisas que não foram legais?

R - Pra instituição de um modo geral, pra medicina de um modo geral que antes de você ser um joelho, você é uma pessoa. Não adianta você tratar parte, você tem que tratar o todo. Muitas vezes é uma coisa antes que vai, a cura está antes. A cura está noutro lugar a não ser no joelho. A medicina tem que evoluir muito ainda. Pra instituição, pro hospital em si...

P - Ou pros rostos que você lembra que faltou...

R - Como assim?

P - Você viu pessoas que tiveram atitudes das quais você não pode dizer nada. Estou te perguntando, se você pensasse nesses rostos, se você pudesse falar alguma coisa, tivesse esse espaço.

R - Acho que é mais ou menos isso. É mais ou menos a mesma coisa. É olhar outra pessoa que está ali, num determinado papel de paciente e você está num determinado papel de enfermeiro. Mas são duas pessoas, acho que os papéis estão acima disso e não precisa estar. Eu sou enfermeira agora então eu vou te furar. Mas é uma questão tão complexa, como esses enfermeiros são tratados, quanto eles recebem pra trabalhar lá, o que eles não passam para chegar ali. Acho que isso que é imenso. O que dá pra falar é que é um absurdo. Hoje em dia como eu fui tratada. É uma absurdo, é sureal, não dá pra acreditar que é esse o tratamento que se dá pra uma pessoa que está numa situação tão frágil dessas. É péssimo. Isso tem que se mudar, a condição.

P - Eu vou te perguntar o que você ainda gostaria de realizar na sua vida, quais são os seus planos para o futuro.

R - Nossa... Eu não tenho nenhum.

P - Tem algum sonho?

R - Também não. Essa coisa de ainda quero fazer isso, não. Eu quero fazer todo dia fazer um dia. Depois de passar por tudo isso, é tão frágil. É legal você pensar “Um dia ainda posso fazer isso, se você fica muito lá, a vida pode acabar aqui. A vida, nunca eu acho que acaba. Não acho que a gente morre. A gente pode mudar de condição muito rápido, eu quero viver agora. Eu quero que cada minuto seja o meu lazer.

P - Quando você fala “A gente não morre”, você tem alguma religião, alguma espiritualidade que te conta isso?

R - Acho que sim, considero que sim. Mas não sou de nenhuma religião. Eu tenho o que eu acredito, minhas conclusões gerais de tudo que eu já conheço das religiões, do que eu já fui atrás. Mas eu acho que a gente não morre, só muda de estado, de físico para o gasoso. (Risos)

P - Você gostou de ter dado essa entrevista?

R - Adorei, adorei.

P - É uma coisa muito forte, pra gente que está ouvindo é só agradecer de coração porque se dispôs a lembrar tudo e contar.

R - Imagina, obrigada eu. Acho que é importante assim falar, são coisa bonitas de serem pensadas. Foi bom pra mim também.

P - Um dos sonhos que a gente tem com esse projeto é que esse pudesse ser um pouco um espaço de cidadania, pras coisas que não deu pra você falar naquele momento.

R - E de estar podendo contribuir pra isso, eu é que agradeço porque tomara que mude mesmo.

P - Então, muito obrigada.

R - Obrigada eu.

  Sobre o EncontraGoiânia
Fale com EncontraGoiânia
ANUNCIE: Com Destaque | Anuncie Grátis

siga o Encontra Goiânia no Facebook siga o Encontra Goiânia no Twitter


Termos do Serviço | Política de Privacidade